Breve Exposição (Robert Kalley)

Nos Estatutos da nossa Igreja, datados de 1915, encontramos no Artigo 3º que “A natureza do culto, doutrinas e constituição da Igreja Evangélica Lisbonense […] acham-se baseadas na Bíblia e sintetizadas no tratado «Breve Exposição das Doutrinas Fundamentais do Cristianismo»”. É este último tratado que agora te apresentamos:

BREVE EXPOSIÇÃO DAS DOUTRINAS FUNDAMENTAIS DO CRISTIANISMO

Art. 1.º – Testemunho quanto à Existência de Deus
Existe um só Deus [Dt. 6:4], vivo e pessoal [Jr. 10:10]; as Suas obras no céu e na terra manifestam, não meramente que existe, mas que possui sabedoria, poder e bondade tão vastos que os homens não podem compreender [Sl. 8:1]; conforme a sua soberana e livre vontade, governa todas as coisas [Rm. 9:15, 16].

Art. 2.º – Testemunho a Respeito de Deus e do Homem
Ao testemunho das Suas obras Deus acrescentou informações [Hb. 1:1] a respeito de si mesmo [Ex. 34:5-7] e do que requer dos homens [II Tm. 3:15, 16]. Estas informações acham-se nas Escrituras do Antigo e do Novo Testamento [os livros apócrifos não são parte da Escritura devidamente inspirada] nas quais possuímos a única regra perfeita para a nossa crença sobre o Criador, e preceitos infalíveis para todo o nosso proceder nesta vida [Is. 8:19, 20].

Art. 3.º – Natureza dessa Revelação
As Escrituras Sagradas foram escritas por homens santos, inspirados por Deus, de maneira que as palavras que escreveram são as palavras de Deus [II Pe. 1:19-21]. O seu valor é incalculável [Rm. 3:1,2], e devem ser lidas por todos os homens [Jo. 5:39].

Art. 4.º – Natureza de Deus
Deus o Soberano Proprietário do Universo é Espírito [Jo. 4:24], Eterno [Dt. 32:40], Infinito [Jr. 23:24] e Imutável [Ml. 3] em sabedoria [Sl. 146:5], poder [Gn. 17:1], santidade [Sl. 144:17], justiça [Dt. 32: 4], bondade [Mt. 19:17] e verdade [Jo. 7:28].

Art. 5.º – A Trindade da Unidade
Embora seja um grande mistério que existam diversas pessoas em um só Ente, é verdade que na Divindade existe uma distinção de pessoas indicada nas Escrituras Sagradas pelos nomes de Pai, Filho e Espírito Santo [Mt. 28:19] e pelo uso dos pronomes Eu, Tu e Ele, empregados por Elas, mutuamente entre Si [Jo. 14:16, 17].

Art. 6.º – Criação do Homem
Deus, tendo preparado este mundo para a habitação do género humano, criou o Homem [Gn. 1:2-27], constituindo-o de uma alma que é espírito [Ec. 12:7], e de um corpo composto de matérias terrestres [Gn. 2:7]. O primeiro homem foi feito à semelhança de Deus [Gn. 1:26, 27], puro, inteligente e nobre, com memória, afeições e vontade livre, sujeito Àquele que o criou, mas com domínio sobre todas as outras criaturas deste mundo [Gn 1:28].

Art. 7.º – Queda do Homem
O Homem assim dotado e amado pelo Criador era perfeitamente feliz [Gn. 1:31], mas tentado por um espírito rebelde (chamado por Deus, Satanás), desobedeceu ao seu Criador [Gn. 2:16, 17]; destruiu a harmonia em que estivera com Deus, perdeu a semelhança divina; tornou-se corrupto e miserável, deste modo vieram sobre ele a ruína e a morte [Rm. 5:12].

Art. 8.º – Consequência da Queda
Estas não se limitam ao primeiro pecador. Os seus descendentes herdaram dele a pobreza, a desgraça, a inclinação para o mal e a incapacidade de cumprir bem o que Deus manda [Sl. 50:7]; por consequência todos pecam, todos merecem ser condenados, e de facto todos morrem [I Co. 15:21].

Art. 9.º – Imortalidade da Alma
A alma humana não acaba quando o corpo morre. Destinada pelo seu Criador a uma existência perpétua, continua capaz de pensar, desejar, lembrar-se do passado e gozar da mais perfeita paz e regozijo; e também de temer o futuro, sentir remorso e horror e sofrer agonias tais, que mais quereria acabar do que continuar a existir [Lc. 16:20-31]; o pecado da rebelião contra o seu Criador merece para sempre esta miséria, que é chamada por Deus de segunda morte [Ap. 21:8].

Art. 10.º – A Consciência e o Juízo Final
Deus constituiu a consciência juiz da alma do Homem [Rm 2:14, 15]. Deu-lhes mandamentos pelos quais se decidissem todos os casos [Mt. 22:36-40], mas reservou para Si o julgamento final, que será em harmonia com Seu próprio caráter [Sl. 49:6]. Avisou os homens da pena com que punirá toda injustiça, maldade, falsidade e desobediência ao Seu governo [Gl. 3:10]; cumprirá as Suas ameaças, punindo todo pecado em exata proporção à culpa [II Co. 5:10].

Art. 11.º – A Perversidade do Homem e o Amor de Deus
Deus vendo a perversidade, a ingratidão e o desprezo com que os homens lhe retribuem os seus benefícios e o castigo que merecem [Hb. 4:13], cheio de misericórdia compadeceu-se deles; jurou que não desejava a morte dos ímpios [Ez. 33:11]; além disso, tomou-os e mandou declarar-lhes, em palavras humanas, a Sua imensa bondade para com eles; e quando os pecadores nem com tais palavras se importavam, ele deu-lhes a maior prova do Seu amor [Rm. 5:8, 9] enviando-lhes um salvador que os livrasse completamente da ruína e da miséria, da corrupção e da condenação e os restabelecesse para sempre no Seu favor [II Co. 5: 18-20].

Art. 12.º – Origem da Salvação
Esta Salvação, tão preciosa e digna do Altíssimo (porque está perfeitamente em harmonia com seu carácter) procede do infinito amor do Pai, que deu o Seu unigénito Filho para salvar os seus inimigos [I Jo. 4:9].

Art. 13.º – O Autor da Salvação
Foi adquirida, porém, pelo Filho, não com ouro, nem com prata, mas com o Seu sangue [I Pe. 1:18, 19], pois tomou para Si um corpo humano e alma humana [Hb. 2:14] preparados pelo Espírito Santo no ventre de uma virgem [Mt. 1:20]; assim, sendo Deus e continuando a sê-Lo se fez homem [Jo. 1:1-14]. Nasceu da Virgem Maria, viveu entre os homens [At. 10:38], como se conta nos evangelhos, cumpriu todos os preceitos divinos [I Pe. 2:22] e sofreu a morte e a maldição como o substituto dos pecadores [Gl. 3:13], ressuscitou [Mt. 28:5, 6] e subiu ao céu [Mc. 16:19]. Ali intercede pelos seus remidos [Hb. 7:25] e para valer-lhes tem todo o poder no céu e na terra [Mt. 28:18]. É nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo [At. 5:31], que oferece, de graça, a todo o pecador o pleno proveito de Sua obediência e sofrimentos, e o assegura a todos os que, crendo n’Ele, aceitam-no por Seu Salvador [Jo. 1:14].

Art. 14.º – Obra do Espírito Santo no Pecador
O Espírito Santo enviado pelo Pai [Jo 14:16, 26] e pelo Filho [Jo. 16:7], usando das palavras de Deus [Ef. 6:17], convence o pecador dos seus pecados e da ruína [Jo. 16:8] e mostra-lhe a excelência do Salvador [Jo. 16:14], move-o a arrepender-se, a aceitar e a confiar em Jesus Cristo. Assim produz uma grande mudança espiritual chamada «nascer de Deus» [Jo. 1:12, 13]. O pecador nascido de Deus está desde já perdoado, justificado e salvo; tem a vida eterna e goza das bênçãos da Salvação [Gl. 3:26].

Art. 15.º – O Impenitente
Os pecadores que não crerem no Salvador e não aceitarem a Salvação que lhes está oferecida de graça, hão-de levar a punição das suas ofensas [Jo. 3:36], pelo modo e no lugar destinados para os inimigos de Deus [II Ts. 1:8, 9].

Art. 16.º – A Única Esperança de Salvação
Para os que morrem sem aproveitar-se desta salvação, não existe por vir além da morte um raio de esperança [Jo. 8:24]. Deus não deparou remédio para os que, até o fim da vida neste mundo, perseveraram nos seus pecados. Perdem-se. Jamais terão alívio [Mc. 9:42, 43].

Art. 17.º – Obra do Espírito Santo no Crente
O Espírito Santo continua a habitar e a operar naquele que faz nascer de Deus [Jo. 14:16, 17]; esclarece-lhe a mente mais e mais com as verdades divinas [Jo. 16:13], eleva e purifica-lhe as afeições adiantando nele a semelhança de Jesus [II Co. 3:18], estes frutos do espírito são prova de que passaram da morte para a vida, e que são de Cristo [Gl. 5:22, 23].

Art. 18.º – União do Crente com Cristo e o Poder para o Seu Serviço
Aqueles que têm o Espírito de Cristo estão unidos com Cristo [Ef, 5:29,30], e como membros do seu corpo recebem a capacidade de O servir [Jo. 15:4-7]. Usando desta capacidade, procuram viver, e realmente vivem, para a glória de Deus, o seu Salvador [I Co. 6:20].

Art. 19.º – A União do Corpo de Cristo
A Igreja de Cristo no céu e na terra é uma [Ef. 3:15] só e compõe-se de todos os sinceros crentes no Redentor [I Co. 12:13], os quais foram escolhidos por Deus, antes de haver o mundo [Ef. 1:11], para serem chamados e convertidos nesta vida e glorificados durante a eternidade [Rm 8: 29, 30].

Art. 20.º – Os Deveres do Crente
É obrigação dos membros de uma Igreja local, reunirem-se [Hb. 10:25] para fazer oração e dar louvores a Deus, estudarem a Sua Palavra, celebrarem os ritos ordenados por Ele, valerem-se uns aos outros e promoverem o bem de todos os irmãos; receberem [Rm. 14:1] entre si como membros aqueles que o pedem e que parecem verdadeiramente filhos de Deus pela fé; excluírem [I Co. 5:3-5] aqueles que depois mostram a sua desobediência aos preceitos do Salvador que não são de Cristo; e procurarem o auxílio e proteção do Espírito Santo em todos os seus passos [Rm. 8:5, 16].

Art. 21.º – A Obediência dos Crentes
Ainda que os salvos não obtenham a salvação pela obediência à lei senão pelos merecimentos de Jesus Cristo [Ef. 2:8, 9], recebem a lei e todos os preceitos de Deus como um meio pelo qual Ele manifesta a Sua vontade sobre o procedimento dos remidos [I Jo. 5:2, 3] e guardam-nos tanto mais cuidadosa e gratamente por se acharem salvos de graça [Tt. 3:4-8].

Art. 22.º – O Sacerdócio dos Crentes e os Dons do Espírito
Todos os crentes sinceros são sacerdotes para oferecerem sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo [I Pe. 2:5-9], que é o Mestre [Mt. 23:8-10], Pontífice [Hb. 3:1] e a Único Cabeça da sua Igreja [Ef. 1:22]; mas como Governador da Sua casa [Hb. 3:6] estabeleceu nela diversos cargos [I Co. 12:28] como o de Pastor [Ef. 4:2], o de Presbítero [I Tm. 3:1-7], o de Diácono [I Tm 3:8-13], e o de Evangelista; para eles escolhe e habilita, com talentos próprios, aos que Ele quer para cumprirem os deveres desses ofícios [I Pe. 5:1], e quando existem devem ser reconhecidos pela igreja e preparados e dados por Deus [Fl. 2:29].

Art. 23.º – A Relação de Deus para com Seu Povo
O Altíssimo Deus atende as orações [Mt. 18:19] que, com fé, e, em nome de Jesus, único Mediador [I Tm. 2:5] entre Deus e os homens, lhe são apresentadas pelos crentes, aceita os louvores [Cl. 3:16, 17] e reconhece como feito a Ele, todo o bem feito aos Seus [Hb. 10:1].

Art. 24.º – Cerimónia e Ritos Cristãos
Os ritos judaicos, divinamente instruídos pelo Ministério de Moisés, eram sombras dos bens vindouros e cessaram quando os mesmos bens vieram: os ritos cristãos são somente dois: o batismo com água [At. 10:47, 48] e a Ceia do Senhor [Mt. 26:26-28].

Art. 25.º – Batismo com Água
O batismo com água foi ordenado por Nosso Senhor Jesus Cristo como figura do batismo verdadeiro e eficaz, feito pelo Salvador, quando envia o Espírito Santo para regenerar o pecador [Mt. 3:11]. Pela receção do batismo com água, a pessoa declara que aceita os termos do pacto em que Deus assegura as bênçãos da salvação [Mt. 3:11].

Art. 26.º – Ceia do Senhor
Na Ceia do Senhor, como foi instituída pelo Senhor Jesus Cristo, o pão e o vinho representam vivamente ao coração do crente o corpo que foi morto e o sangue derramado no Calvário [I Co. 10:16]; participar do pão e do vinho representa o facto de que a alma recebeu o seu Salvador. O crente faz isso em memória do Senhor, mas é da sua obrigação examinar-se primeiro fielmente quanto a sua fé, ao seu amor e o ao seu procedimento [I Co. 11:28, 29].

Art. 27.º – A Segunda Vinda do Senhor
O nosso Senhor Jesus Cristo virá do céu como homem [At. 1:11], na Sua própria glória [Mt. 25:31] e na glória do Seu Pai [Mt. 16:27], com todos os santos e anjos; assentar-se-á no trono da Sua glória e julgará todas as nações.

Art. 28.º – A Ressurreição para a Vida ou para a Condenação
Vem a hora em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus e ressuscitarão [Jo. 5:25-29]; os mortos em Cristo ressurgirão primeiro [I Co. 15:22, 23]; os crentes que neste tempo estiverem vivos serão mudados [I Co. 15:51, 52], e sendo arrebatados estarão para sempre com o Senhor, os outros também ressuscitarão, mas para a condenação [Jo. 5:29].

[Robert Kalley, 2 de Julho de 1876]

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